VOLTA AO NORMAL? NO, THANK´S (II)

Imagem: Marisa Rodrigues, CEO da Taxi Blue Comunicação Estratégica

Por Marisa Sevilha Rodrigues

Com a redescoberta do Home Office, uma possibilidade aventada desde a década de 80, as empresas já entenderam que sairá muito mais barato desativar seus imóveis ocupados com escritórios, preferindo pagar um salário melhor para que os funcionários equipem suas casas com conforto, segurança e todas as traquitanas digitais que lhes possibilitem trabalhar  de modo remoto. Pelo menos, é o que considero sensato fazerem, levando em conta o bem-estar das pessoas e, assim, primando, por sua felicidade e, consequentemente, produtividade. Isso será o que farei, como pequena empresária do setor de comunicação, sem nenhuma sombra de dúvida. Grandes corporações como Google e Facebook já anunciaram que farão isso, já neste ano, mantendo suas equipes em casa, mesmo após a pandemia. É de se esperar que os empresários brasileiros, que em geral, são sempre os últimos a aderirem ao pacote de boas idéias que vêm das marcas líderes, compreendam e adotem isso em suas corporações, dessa vez, sem mais delongas. 

Se essa é a tendência no mercado de trabalho, é sensato preconizar que o mercado imobiliário sofrerá um grande impacto, embora os “especialistas” ou consultores da área, desesperados com seus estoques de apartamentos nas plantas, não concordem.  Penso que ninguém mais vai querer ser pego de surpresa, fechado numa caixa de 50, 60, 100 m2, ou pior ainda, nos tais stúdios de 30, 25 ou até 20 m2. Quem, em sã consciência vai querer comprar apartamento, para não ter direito a frequentar a própria área social, ou não poder tomar nem um solzinho, se, com a metade do valor ou até um terço, do preço desses imóveis, poderão comprar casas nos arredores das capitais, ou mesmo chácaras e sítios, onde poderão usufruir de áreas verdes com espaços para o cultivo de hortaliças, frutas e legumes; área de lazer com piscina e playground para as crianças; quintal grande para todos os pets da família, e sol à vontade, todos os dias do ano?

Quem vai querer ficar novamente enclausurado, dentro de casa, criando limo, engordando e sofrendo de ansiedade, como um dos muitos efeitos colaterais pós-pandemia, se poderemos lançar mão de opções de moradia muito mais aconchegantes, confortáveis e saudáveis, nas cidades pequenas em torno das capitais, se não precisarmos mais nos deslocar para os escritórios ou sedes das empresas que nos contratam? Os idosos, tenho certeza que não pensarão duas vezes. Os adultos, poderão até relutar um pouco, com suas vidas já estabelecidas nos grandes centros, mas de cada dez casais com os quais converso, nove já tomaram essa decisão. E os, jovens, então, se poderão aliar lazer, prazer e trabalho – quer opção mais fantástica? – serão os primeiros a puxar essa fila. Isso, quando não se mudarem para outros países, pois também não são poucos os que conheço que estão preferindo esse caminho da imigração, antes, mesmo, da pandemia. 

Outro fato que me leva a ter certeza, quase absoluta, dessa nova reestruturação das cidades, é a percepção que não dependeremos mais tanto dos carros, uma vez que 30% deles ficaram guardados nas respectivas garagens durante esse período, pois metade da população ficou em Home Office e, a outra metade que precisou ir trabalhar nos serviços essenciais, preferiu usar outros meios de transporte, como ônibus, trens, metrôs, sem falar nas bikes, caronas ou a pé, mesmo. Fato que levou o preço do combustível despencar nos primeiros dias de abril, sendo que o preço do petróleo ficou negativo, nos Estados Unidos

O maior apelo das grandes cidades, além de mais emprego – subemprego, na maioria das vezes – sempre esteve aliado às mil e uma possibilidades de diversão, lazer e cultura, além das tão buscadas opções de educação universitária. Entretanto, bares, restaurantes, teatros, museus, cinemas, shoppings (com tudo isso dentro) e os parques, foram os primeiros estabelecimentos a serem fechados, assim que o isolamento fêz-se necessário com a chegada da pandemia, em todos os lugares do mundo, desde pequenas cidades até os grandes centros. Então, isso não será mais um atrativo para as pessoas se mudarem de seus locais de origem; o que, provavelmente, ocorra, será uma descentralização das ofertas de cultura e lazer para os médios e até pequenos municípios. Sorte dos entornos das capitais, regiões serranas e até o litoral, que verão seus mercados imobiliários dispararem, em oposição aos pólos de regiões, que, em muitos casos, poderão até virar cidades-fantasmas, numa projeção mais catastrófica. Os consultores imobiliários negam-se a enxergar esse panorama, desesperados que estão em desovar seus estoques de apartamentos vendidos na planta.  Os oportunistas, que sempre querem se beneficiar com a desgraça alheia, alegram-se por poderem comprar tudo, agora, na bacia das almas. Porém, pessoas mais conscientizadas, e não tem como não sair mais consciente da realidade que vivemos, após esses noventa dias de confinamento forçado, não devem se preocupar com isso. A máxima deverá ser uma só: qualidade de vida, bem estar individual, familiar e coletivo.

Outra coisa que me leva a pensar que haverá uma grande mudança na nossa maneira de viver antes de pandemia, na pós-pandemia, e que também atrairá as pessoas para os pequenos centros, será o abastecimento de comida, que, embora não tenha faltado nada nas redes de supermercados, nesta primeira onda, a razão e o bom senso nos levam a crer que se estivermos próximos dos produtores locais e regionais de legumes, frutas, verduras e outros hortifrutis como ovos, leite e seus derivados, além dos grãos, nos sentiremos muito mais seguros, além da garantia de qualidade desses alimentos, produzidos por pequenos e médios agricultores que não fazem uso de agrotóxicos em seus cultivos. Cenário que me faz ter certeza de uma nova atitude do new-consumer, muito mais consciente e responsável, que passará a privilegiar a produção orgânica, o localismo, o vegetarianismo e o veganismo,  na onda dos New´s Farmer que já fazem isso desde a década de 30, nos Estados Unidos e Europa. 

Aliás, essa mudança de hábito da sociedade pós-moderna já se faz presente há umas duas décadas, pelo menos, desde que eles começaram a exigir certificação e procedência dos produtos que consomem, de alimentos a roupas, passando por móveis, roupas, calçados, acessórios, utensílios domésticos, etc…etc…Não é por outra razão que nesse mesmo período os movimentos de veganos e vegetarianos deixaram de ser uma tendência apontada pelos estudiosos de economia e preferências de consumo e viraram novos nichos de mercado que só crescem, nos últimos anos. Se se acrescentar a esse panorama, a questão ambiental, cuja preservação é uma premência, não é preciso ser nenhum vidente para apostarmos que a sociedade do século XXI caminhará cada vez mais em  direção ao que é natural, orgânico, tradicional, e, principalmente, o mais sustentável possível, visto que o planeta não pode mais ser exaurido, como vem sendo, ao longo dos séculos, como se os seus recursos fossem infinitos. O “novo-normal” obrigará a humanidade a fazer em 100 dias o que ela não fêz em 100 anos. Indivíduos e coletivos exigirão um mundo mais slow, em todos os sentidos,  livre de tantos poluentes, menos desigual, com mais inclusão social, responsável no consumo e abate de animais (haverá uma grande revolução no setor pecuário, também, pois essa é uma das indústrias mais atingidas pelo Covid_19, mas isso é tema para o próximo post), que deverá perceber a grande satisfação que dá conviver mais com sua família e comunidade, que não desejará mais buscar atingir metas e resultados a qualquer preço, a despeito da injustiça social que isso causa e dos grandes prejuízos que isso causa a nossa saúde. Minimalismo, será a nova palavra de ordem, que terá que andar de braços dados com a palavra sustentabilidade.

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