VOLTA AO NORMAL? NO, THANK´S

Por Marisa Sevilha Rodrigues

Quem é que quer sair da garagem e já dar de cara com um engarrafamento, na sua própria rua? Quem quer continuar perdendo a hora para todos os compromissos, de profissionais a sociais, passando pelo médico, o dentista, a escola do filho, tuuuuuuuudo sempre atrasado, ainda que vc se levante as três da matina, como alguns apregoam: “ah, mas é só levantar mais cedo”, como se derrepente as pessoas tivessem virado máquinas, não sentissem o peso das noites mal-dormidas, o stress da semana inteira de trabalho mais estudos, mais família, filhos, pais doentes, prá cuidar, ou tivessem ganhado asas, virado anjo, embora mais se parecessem com zumbis?

Sim, antes, muito tempo antes do Covid_19 já tínhamos virado zumbis e nem tínhamos nos dado conta. Nossa vida era um inferno, e tentávamos sorrir e ainda parecer realizados ou – no caso dos mais estóicos – felizes com ela. Passamos dias, meses, anos e décadas cumprindo uma agenda sem fim, desde criancinhas, com escola, karatê, natação, balé, jiu-jitsu, e o c@#&lh& a quatro; na adolescência, idem, tanto para homens como mulheres, como para todos os outros gêneros sexuais do alfabeto para não me chamarem de sexista; dependendo da classe social, além da escola, com faculdade, aulas de inglês, ginástica, fonética, gramática, ainda tínhamos que trabalhar durante o dia, para pagar a mensalidade no final do mês. Em São Paulo, o sujeito que leva uma vida dessas, morre aos 40 anos, inadiavelmente. Ou do físico, ou da alma, ou do emocional, ou dos três.

De dez entre dez amigos que interpretaram esse papel, levando-o às raias da loucura, no caso dos perfeccionistas como eu, quando pegaram seus canudos – a maioria, é claro, desistiu no meio do caminho –, perderam seus empregos, ou nunca conseguiram um, viraram alcoólatras ou dependentes químicos, ou simplesmente, sofreram longas depressões, que devastaram suas vidas. Perderam maridos ou mulheres, filhos, vida social, profissional, financeira e o escambau. Alguns viraram indigentes. Dá prá contar nos dedos os que “deram certo” de acordo com o status quo estabelecido pelo sistema, que sempre pregou a meritocracia na corrida por melhores empregos, melhores condições de habitação, higiene educação, etc..etc…sem nunca questionarem o porquê de ter que trabalhar e se esforçar taaaaaaaanto para construir uma privada na própria casa, se é ao estado que compete prover as cidades, os estados e o País, de saneamento básico.

Por quê trabalhar e se sacrificar taaaaanto para comprar um apartamento e casar com a dívida própria, perder emprego e ser despejado, se também é ao estado que compete dar condições de habitação dignas para o cidadão? Aliás, direito à moradia é lei, mas ninguém sabe disso, ninguém conhece seus direitos no Brasil e, muito menos, luta por eles. Porquê se matar de trabalhar com jornadas duplas ou triplas  – jornalistas sempre tiveram dois empregos, além de inúmeros freelances para complementar suas rendas, devido aos salários injustos e inglórios que sempre receberam – para pagar escolas particulares e planos de saúde, se também isso é da responsabilidade do estado? Por quê, sem nunca ter fumado na vida, aos 50 anos, ter um pulmão de quem fumou três cigarros por dia, por ter respirado um ar cada vez mais poluído em ruas e estradas lotadas de carro, 24 hrs por dia, sete dias por semana, 365 dias por ano, e a a cada ano, recebendo mais e mais carros, pois transporte público também nunca foi uma preocupação do Estado, levada à sério, vide o tempo que se leva para construírem uma linha de metrô – décadas – nas nossas grandes cidades, seja em São Paulo, Rio ou sei lá mais onde já existe metrô? Tem metrô em Salvador, Recife, Florianópolis? Não sei, mas que o trânsito nessas cidades também é muito pesado e o ar poluidíssimo, ninguém discute.

Eu quero voltar para essa vida miserável? Quero nada. E não a quero para os meus semelhantes e descendentes também, cara pálida. Ainda mais agora, com toda a tecnologia a nossa disposição. Viajar tanto a trabalho para quê? Vamos fazer mais reuniões de trabalho por conferences call, vamos economizar o nosso tempo e o nosso físico, a nossa saúde mental e emocional para sermos felizes em outras praias, que não apenas os sofás, assistindo séries, depois de estafantes viagens que, muitas vezes, são apenas mais do mesmo, não acrescentam nada em nossa carreira ou experiência profissional. Vamos viajar, mais, sim, mas a passeio e não sempre à negócios. Eu mesma, sou uma que só conheço o Nordeste, a trabalho. Fui uma única vez para Salvador e Itapuã, a lazer. E mais umas dezena de vezes, para Recife, Olinda, Itaparica, Aracaju, Natal, só a trabalho.

Conheci o Pantanal e a Chapada dos Guimarães, como repórter, fazendo matérias para o Guia 4 Rodas ou freelas para a Revista Viagem. Adoraria ter voltado, but, never more. Ah, mas a indústria turística vai acabar, e ela gera empregos, e isso e mais aquilo. Nãooooooo, não vai acabar de modo algum. Algumas marcas sofrerão, sim, é verdade, mas logo as coisas se ajeitam, elas se adaptam, e as companhias internacionais que só vêm prá cá para acabarem com nossas últimas reservas ecológicas, nossos santuários naturais, construindo aqueles resorts imensos e acabando com todas as vilas e as culturas caiçaras ao redor, que acabem, pois não acrescentam nada de bom às nossas vidas, embora as pessoas que frequentem essas lugares não tenham essa consciência. Eu não quero que quebrem as pequenas pousadas, os negócios familiares, mas quero ter tempo para poder usufruir mais desses espaços. Do jeito que era minha vida antes do Covid-19, eu não tinha nem direito a férias. Durante 20 anos, tirei uma micro-férias, de apenas 10 dias, uma uniquíssima vez.

Ah, mas e os restaurantes? Se a vida não voltar ao normal, eles também morrerão. Evidentemente, todos terão prejuízos, durante essa quarentena, e muitos, infelizmente, talvez tenham que fechar suas portas, se não conseguirem se adaptar, mas o delivery já virou uma realidade. Mais uma vez o digital foi acelerado pelo Covid_19, e o que engatinhava, há décadas, virou uma nova realidade do dia para o outro. Qualquer birosca de ponta de rua começou a fazer quentinhas e contratou um motoboy para entregá-las aos clientes. Médicos, psicólogos, escolas, exercício físico, tudo por vídeo-call. É certo que o lado ruim dessa história foram os carreiristas de sempre, que, sem ter um produto imediato para oferecer, resolveram fazer lives e mais lives sobre…naaaaaaaaada, tumultando e atrapalhando o tráfego na web. Mas isso já já entra nos eixos, essas pessoas não ganharão audiência, obvious, e logo logo vão descobrir que criar galinhas é o grande negócio do momento. Fazer uma horta em casa, plantar couve, cebolinha, quiabo, pepino, tomate, tudo que é possível cultivar até numa varanda ou área de serviço, dentro de um vaso, porquê a ordem, meu amigo, é economizarrrrrr…simmmm. O novo normal é minimalista. Menos, que já era mais, agora será cada vez mais-menos, se é que me entende. O over está por fora. Gente descolada vai investir no conforto da casa, em qualidade de vida, em educação e saúde, sempre. E só os bocós vão continuar comprando stúdios de 26m2 em São Paulo, Changai ou Nova York. Fala sério: quem vai querer ser pego de surpresa, por nova pandemia, e ter que ficar outra vez enclausurado em um apartamento, sem poder frequentar nem a própria área social para tomar um solzinho?

Euuuuuuu, não quero. E tenho certeza que todas as pessoas de bom senso que eu conheço – e felizmente, são muitas – também não querem mais voltar a esse velho normal, caótico, escravagista, burro e infernal. Eu já estou arrumando as minhas trouxas prá ir baixar em outra freguesia. De preferência, alguma chácara no interior de São Paulo, com muita área verde para fazer um jardim, uma horta e um pomar. Também terá dois pés de côco, onde vou amarrar a minha rede para descansar entre uma capinada e outra. A casa poderá ser bem pequena, para não ter trabalho com faxina. Os amigos sempre serão bem vindos, mas terão que trazer suas barracas. Nas noites de frio, faremos fogueira e todos os dias do ano serão de festa junina.

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