MULHERES INSPIRADORAS DA MINHA VIDA

MULHERES INSPIRADORAS DA MINHA VIDA

Neste Dia Internacional das Mulheres decidi render uma homenagem a todas as mulheres da minha vida. Mulheres que me inspiraram desde o berço, como minha mãe, Antonietta Romagnoli Rodrigues e que continuou sendo o meu porto seguro até os seus quase 90 anos. Mulheres que me educaram na primeira infância, como minhas professoras Iracema Dias e Leda Spinardi. Minha tia amada, Cecilia Romagnoli e sua filha, minha prima inesquecível que foi meu primeiro modelo de mulher: Celia Splicido. Linda, alta, cabelos levemente encaracolados, estilo entre o hyppie e o romântico, compridos até a cintura, calça jeans Staroup, bem justa, ou boca de sino, ela foi a primeira pessoa que falou comigo sobre menstruação e a capacidade feminina de gerar a vida, mostrando-me numa cartilha os desenhos dos nossos órgãos internos e externos. Eu tinha apenas nove anos e nunca mais me esqueci dessa lição,  tão necessária,  para meninas entrando na puberdade. Embora eu só tenha ficado menstruada aos 15 anos, foi um divisor de águas entre a minha infância e adolescência, e eu não só quero agradecê-la, Célia, por esse carinho, como neste Dia Internacional das Mulheres meu maior desejo é que todas as meninas do mundo – brancas, pardas, pretas, japonesas, pobres ou ricas, bonitas ou feias, baixinhas ou gordinhas — encontrassem alguém assim como você, em suas vidas, para que não engravidassem ainda tão jovens, adolescentes ou até mesmo na puberdade, destruindo seus sonhos,  futuros e todas as oportunidades que sempre surgem, de um jeito ou de outro, porquê deixam de ser filhas para serem mães-meninas. Sempre achei isso muito cruel, muito fora da ordem natural das coisas, e tenho certeza que é por causa desses primeiros ensinamentos recebidos ainda tão criança, que eu fui tão responsável e preocupada com uma gravidez indesejada.  Lembro-me que fiquei muito chocada, e que demorou alguns dias para eu entender e assimilar as novas funções do meu corpo. Passada a surpresa, eu comecei a me sentir e me comportar como uma mocinha. Brigadu, Célia, te amo.

Já adolescente, não posso deixar de me lembrar de duas mulheres muito especiais, minhas primeiras melhores amigas, Lucia Canhim e Rosângela Castilho Alcaráz, que fizeram o papel de irmãs mais velhas, me ouvindo, apoiando, orientando, dando exemplos, estudiosas que eram, para que eu também continuasse os meus estudos, mesmo que para mim tudo fosse mais difícil, pois elas eram filhas únicas, de classe média alta, e eu a mais velha de uma família meio estraçalhada,  com mais quatro irmãs e um irmão caçula, de uma família cujo pai havia sofrido um acidente, tendo ficado um ano sem trabalhar, em recuperação, e minha mãe havia assumido as rédeas da casa. Nessa época eu e minhas irmãs vendíamos verduras para ajudá-la no orçamento doméstico, e eu morria de vergonha de bater na porta de minhas colegas de classe, numa das minhas andanças pelo bairro como verdureira. Eu odiava ter que fazer isso, chorava muito, mas não tinha jeito. Não podia voltar para a casa sem vender tudo, então, eu ia para as casas dessas minhas amigas, e elas compravam tudo o que ainda sobrava na cesta,  para me ajudar e me consolar, além de me encherem de atenção, carinho,sobremesas, tardes de maquiagens, gibis e fotonovelas. Que ninguém pense aqui que eu tenha me sido escrava infantil, pois a primeira obrigação na minha casa sempre foi ir, primeiro à escola. De qualquer modo, era um trabalho forçado, mas hoje sou muito grata por ter aprendido o valor das coisas e do dinheiro, vendendo verduras, pois minha mãe, à época não tinha outra opção: ela tinha seis filhos e um marido incapacitado para sustentar, e  precisava se jogar no trabalho. Então, ela dedicou-se ao que sabia fazer: plantação de frutas e hortaliças, pois havia nascido num sítio, e sabia tudo sobre administração de propriedades rurais, e de outro lado, costura, pois quando jovem, aprendera o ofício num famoso ateliê de Candido Mota – SP, tendo costurado para a alta sociedade de Assis e região, desde os 20 até os 30 anos, quando conheceu meu pai numa véspera de Natal, no footing vespertino em torno da praça da catedral: um forasteiro sem eira nem beira, mas metido num terno de linho e chapéu Panamá, além do indefectível cavalo branco. Bom, o resto dessa história eu conto outra hora, mas já dá para perceber porquê minha mãe foi a primeira e grande heroína da minha vida, né? Durante o dia ela cultivava alfaces, cenouras e tomates. E, à noite, ficava até tarde, costurando.

Quando me mudei para Assis, para cursar a faculdade de Letras, na Unesp – SP, conheci duas mulheres que marcaram a minha juventude: Edna Maria de Carvalho e Vera Lucia de Oliveira. A primeira, era uma advogada, quinze anos mais velha que eu, e a segunda, uma colega do curso, embora numa turma mais adiantada. Edna passou a concentrar, numa única pessoa, todos os outros papéis que minha mãe, minha tia e prima, e minhas amigas, haviam desempenhado, até então: ela tinha 35 anos e eu apenas, 20. Era formada em direito e eu estava começando os meus estudos superiores. Como eu vivia numa república, longe da minha família, que havia ficado em Dracena ela, praticamente, me adotou. Eu arrumei o meu primeiro emprego como repórter, no jornal Voz da Terra, e ela virou minha fonte para sucessivas reportagens, de A a Z, pois era uma pessoa bastante ativa na cidade, participando de vários grupos sociais, que variavam da OAB-Mulher, passando por ações de arrecadação de cobertores para presos, até a criação do I Museu de Arte Primitiva do Brasil, cujo projeto eu lhe apresentei, e ela ajudou a implementá-lo, junto aos vereadores e prefeitura da cidade. A Edna esteve presente na minha festa de formatura, no lançamento dos meus primeiro e segundo livros, Anjo Descalço (1981) e Maestro de Sonhos (1983), já aqui em São Paulo, e quando recebi uma Menção Honrosa, já trabalhando como repórter especial de cultura, na Visão, por uma reportagem que contava a história de sobrevivência do circo brasileiro (aquele dos palhaços reais, não deste circo político!!!), que mereceu capa da revista, até hoje um dos mais importantes veículos de imprensa do Brasil, junto com Veja, Isto É e Época. Depois da minha mãe, ela é a segunda heroína da minha vida. A mais poderosa, a mais justa, a mais forte e guerreira; incansável, amiga, protetora, diva, tuuuuuuuudo. A gente tem uma estória, juntas, que permeiam sucessivas encarnações, tenho certeza. E nem vou falar de seu papel como ,minha advogada pessoa, num  num grande litígio contra o Bradesco, que ela ganhou, obviamente, porquê aí é assunto para outro post, que já vou deixar agendado, aqui

Enquanto isso, tudo junto e ao mesmo tempo, Vera Lúcia de Oliveira, hoje poeta que mora e leciona numa Universidade, em Perugia, Itália, me apresentou a obra de grandes escritores, nacionais e estrangeiros,  como Moacir Scliar, Oswaldo França Júnior, Carlos Drummond, Ungaretti, além das escritoras marvelous  como Adélia Prado, que eu coloco num pedestal, pois influenciou demais a minha própria poesia, entre  Emily Dickinson, Silvia Plath, Clarice Lispector e Sophia de Mello Breiner. Poetaças que entraram para o panteão das minhas memórias literárias, construindo,  de forma muito sólida, a bagagem poético-cultural, que trago até hoje comigo e para todo o sempre. Verinha, como eu a chamava era muito pobre, morava numa casinha de três cômodos, divididos com a mãe, o pai e um irmão, e trabalhava num laboratório de exames clínicos. Ela odiava ter que arquivar e desarquivar fichas o dia inteiro, era muito branca, muito magra, usava um óculos com fundo de garrafa, e vivia mandando os seus poemas para concursos, os quais ela me ocultava, eu soube depois, para que não fôssemos concorrentes. À época, quando descobri, sofri bastante e considerei uma traição, mas agora eu acho graça, quando me lembro, pois quer dizer que ela já me considerava, uma boa poeta, o que agora, sendo ela consagrada no meio literário, é um tremendo elogio.

No final dos anos 80, tendo me formado, e me mudado para São Paulo, onde comecei a cursar minha segunda graduação, dessa vez, em Comunicação Social, pela Fundação Cásper Líbero, conheci a crítica de arte Sheila Lerner. Trabalhei com ela durante sua curadoria da 19ª. Bienal Internacional de Artes Plásticas, como sua assessora de imprensa, e nem preciso dizer que meu mundo virou umas mil vezes de cabeça para baixo, durante aqueles seis meses de montagem e abertura da exposição, uma das maiores do mundo, ficando atrás apenas da Bienal de Veneza e a de Frankfurt, tamanho o gigantismo e importância, não só para as artes plásticas, mas para a política, a história, a filosofia, e até para a economia, pois bienais foram criadas para refletir nossa incompreensão de estar e ser, no mundo. Naqueles dias, tenho certeza de que, se eu não tivesse tido a sorte de ter minha formação moldada por pessoas como minha minha mãe, minha prima Célia, minhas primeiras melhores amigas Rosangela e Lucia, minhas inesquecíveis Edna Carvalho e Vera Lúcia de Oliveira, além das fantásticas divas-influencers e popstars Adélia- Emily-Silvia-e Sophia, eu não teria segurado as pontas. O nível do trabalho era supermegablastertop exigente, pois durante seis meses iríamos conviver com ninguém menos que Tunga e Anselm Kiefer, Leda Catunda e Marcel Duchamp, Irã do Espírito Santo e Remédios Varo, Luiz Zerbine e Frida Khalo, ou seja, derrepente, a menina que vendia verduras tinha virado assessora de imprensa desses artistas topíssimos da geração de 80,  aos 20 e poucos anos, graças as montanha de gibis-fotonovelas-HQ´s-Reader´sDigest, mais as pilhas de livros devorados desde os 9 anos, começando com a cartilhinha sobre a primeira menstruação e não parando mais, até passar por Machado de Assis, Eça de Queiróz, Drummond, Vinícius, Dostoievsky, Cortázar, Vargas-Lhosa, Gabriel Garcia Márques, Neruda, Mário e Oswald de Andrade, Jean Genet, Rilke, Sartre,  etc… etc…etc…senão, eu teria que terminar esse post só com citações de nomes, que não caberiam em dez laudas. Essa oportunidade megamaravilhosa me abriu o universo que eu desconhecia completamente, pois não me lembro se antes dela, havia pisado num museu, sequer numa vernissage ou coletiva de artes plásticas. Eu não conhecia naaaaaaaaaaaaaaaaaaada de nada, mas aprendia tudo com uma voracidade do tamanho da Via Láctea, devorava os catálogos de cada artista e adooooorava ouvir as entrevistas da Sheila Lerner, que desfilava entre a chegada das obras e a montagem das instalações, com uma varinha de cristal à semelhança das varinhas mágicas, e, não por outra razão, eu a transformei, sem que ela nunca soubesse, em minha primeira fada-madrinha.

Nessa mesma época, eu conheci a jornalista Miriam Scavone, repórter da revista Veja São Paulo, que, por diversas vezes, veio fazer entrevistas na 19.Bienal, Ficamos muito próximas  e ela me chamou para cobrir suas férias na Vejinha, coincidentemente, assim que a Bienal fechou suas portas, em dezembro de 1987. Devo a ela a minha entrada no mundo do mainstream,  por isso, sou-lhe imensamente grata pela oportunidade, e seu nome está, para sempre,  inscrito na minha Árvore da Vida.

Infelizmente, eu não consegui continuar na redação da Vejinha, embora tenha desejado e lutado por isso com todo o ardor do meu coração. E, nesse momento, outra grande mulher, me salvou de ir morar embaixo da ponte, apesar da imensa formação que havia acumulado, nesses poucos seis meses de bienal e três de Veja São Paulo:  Norma Alcântara me resgatou do desemprego, me passando dezenas de freelances de sua agência, e acabou me influenciando, profissionalmente, pela especialização em assessoria de imprensa. Norma era encantada pelo meu texto, me enchia de elogios, seeeeeeeempre que me encontrava, vivia me oferecendo vagas de repórter em sua Voice Assessoria, onde era sócia de ninguém menos que João Dória, esse mesmo, nosso atual governador, e com eles fui trabalhar em 1989-93. Ela foi decisiva na minha escolha por esse segmento da profissão, me ensinou as bases de tudo que o que sei até hoje e aplico na minha própria empresa. Extremamente focada e viciada em trabalho, era perfeccionista elevada ao exagono, e, claro, deixou profundas marcas na minha maneira de atuar no mercado de comunicação mercado e de atender os meus clientes, levando-me a perseguição dos resultados até as últimas consequências.

Mas, não posso concluir este post sem citar Joana Woo e Regina Valentim, que me resgataram do ostracismo literário, onde eu havia me enfiado desde a década de 90, me incentivando a não só retomar as publicações dos meus poemas e livros – entre 2015 e 2017, vieram ao mundo os ebooks Cerejas Azuis da Meia Noite e Àgua para Borboletas –,  como, principalmente, a minha escrita literária, pois eu havia me transformado numa poeta bissexta. É verdade que, em meados de 2000 eu já havia saído do casulo, com a chegada da internet às terras tupiniquins, começando por criar o blog Benvindo Prato de Cerejas (www.benvindoaopratodecerejas.blogspot.com), quando decidi passar a limpo as centenas de bloquinhos com poemas e/ou outros textos poéticos, ou que tais (a vaidade às vezes sobe à cabeça, né ?), que eu havia deixado mofando, por vinte anos, à deriva nas gavetas. Mas, sem essas duas figuras tão fortes e emblemáticas, talvez essa estória não tivesse tomado o rumo lindo que tomou: em 2009, eu ganhei de presente de aniversário de Regina Valentim, um sarau regado a música clássica, vinho, velas e flores da Mata Atlântica, em pleno Sertão do Cacau, em Camburi Litoral Norte SP, ocasião em que conheci o poeta e historiador Pedro Motta Pereira. Quase ao mesmo tempo, a Joana Woo (que dispensa apresentações, grande dama das revistas femininas brasileiras entre os 80 e 2000!!!), descobriu a página do blog Benvindo ao Prato de Cerejas no Facebook, e me convidou para repostar os poemas na página Libertária que ela havia criado na rede social, e que chegou a mais de 100 mil seguidores, em apenas um ano. Dali para a criação do selo literário e da coleção Prato de Cerejas foi um zás-tráz. E, como um conto puxa o outro, eu tive a idéia de publicar ebooks de poesia com esse selo, em parceria com a  editora e-galáxia do escritor Tiago Ferro, e convidei o poeta Pedro Motta, aquele que tinha sido apresentado pela Regina Valentim para integrar a primeira coleção, junto com mais cinco outros autores, entre eles, não por acaso, a própria Joana Woo, que muito nos honrou com a presença de seu delicado Haicais dos Sentidos. Dois anos depois, fizemos a segunda coleção, com a revelação de mais poetas e mulheres incríveis como Sara Bononi, Patricia Claudine Hoffmann, Rosa Maria Mano, Maria Elizabeth Cândio e Lana Mota Ribeiro.  

Eis que descubro que o fio de prata que tece a minha própria existência e suas muitas estórias de amor, trabalho e dor, nem sempre com rima, só foram possíveis graças à presença materna-fraterna-solidária-feminina-divina dessas deusas que tanto me amaram, me inspiraram e me possibilitaram ser quem eu sou. E cada uma delas, ainda traz uma plêiade de outros anjos, ao redor. Por exemplo: a minha mãe, trazia as minhas tias. As melhores amigas Rosangela Alcaráz e Lucia Canhin, traziam suas próprias mães, D. Izabel e D. Alzira, que foram minhas segundas mães, na adolescência, época em que a minha mãe mais sofreu com a ausência do meu pai, no arrimo da casa. A minha vida e das minhas irmãs, ainda crianças, se transformaram no mais completo fundo do poço, sem direito a quaaaaaaaaase nada. Só não passamos fome, porquê Antonietta, que era tão linda quanto a Greta Garbo, ficava dia e noite, debruçada sobre o cultivo das hortaliças, e depois, sobre a máquina de costura, para pôr algum dinheiro em casa. A Edna Carvalho, trouxe seus amigos advogados de Assis  que me apoiaram na publicação do meu primeiro livro, Anjo Descalço, uma publicação independente  Enfim, essa homenagem se transformaria em um uma enciclopédia,  muito fácil, porquê as redes de  apoio e solidariedade onde essas mulheres me balançaram foram inúmeras, e eu gostaria de citar cada uma delas, sem exceção, tivesse eu tempo e espaço, neste único post. Portanto, para elas e suas nuvens de querubins,  dedico toda a minha gratidão, reconhecimento e amor incondicional, agora e, para sempre: Antonietta, Cecilia, Celia, Rosângela, Lucia, Vera Lucia de Oliveira, Emily Dickinson, Sophia de Mello Breiner-Sofia Widmer, Edna Carvalho, Adélia Prado, Sheila Lerner, Remédios Varo, Frida Khalo, Silvia Plath, Clarice Lispector, Norma Alcântara, Regina Valentim, Joana Woo:   vocês são a cereja do bolo da minha existência!!!

OBS: . Neste mês, farei vários posts em homenagem às mulheres da minha vida. Não teria chegado até aqui s e não fossem as minhas vizinhas, as minhas terapeutas do Morumbi – fono, dentistas, acupunturistas, esteticistas, etc…etc….—, as mulheres do agro, com quem trabalho há 20 anos, desde que pisei neste setor que é a locomotiva do Brasil; minhas irmãs, minhas sobrinhas, cunhadas, enfim, só tem mulher à minha volta, Muito mais que homem e é isso que faz toda a diferença. Tenho colo quentinho, seeeeeeeempre que preciso ou quero, e isso é tuuuuuuudo de bom!!!!.

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